
(e que outra série conseguiria eliminar quatro protagonistas and getting away with it?)
pois claro.
é o palhaço deste lado que, depois de um desabafo, desaparece e reaparece num estalar de dedos. sim, claro. «os amigos são para as ocasiões», não era? ou os amigos são apenas para todas as ocasiões - com excepção das «minhas» ocasiões? badamerda.
creio que o adjectivo era «ácido», correcto? guilty as charged.
(i wish i was both young and stupid, canta a aimee mann nos headphones. ora nem mais.)
da inocência [via MSN]
[...]
X. eu sou novato por aqui.
me. ah, boa. that's good. you're still innocent.
X. achas?
me. não. lol. who's innocent, these days?

(e sim, este sou eu.)
De repente Lóri não suportou mais e telefonou para Ulisses:
- Que é que faço, é de noite e estou viva. Estar viva está me matando aos poucos, e eu estou toda alerta no escuro.
Houve uma pausa, ela chegou a pensar que Ulisses não ouvira. Então ele disse com voz calma e apaziguante:
- Aguente.»
or stay until the job is done
or maybe you can sit and hope
that Providence will fray the rope
and sink like a stone
ot go it alone
and isn't it enough - for you?
isn't it enough?
the highlight of my day is when I begin to lose consciousness
(podem dar-me dois tiros nas pernas, por favor?)
ontem, à 01:08, a s. enviava-me esta mensagem. não fora o facto de ter apenas um cêntimo no telemóvel e teria respondido. aliás, dados os acontecimentos das últimas catorze horas, deveria tê-lo feito. creio que a frase ficou pendurada sem resposta e tornou-se, sem querer, na epígrafe do meu dia. olhando agora para os últimos dias, a obsessão sem limites pela Anna Karenina foi, mais do que a consequência de uma reconciliação sucessivamente adiada, uma premonição dos diabos. ora bolas.
...
eu: obviamente. acha que conseguiria ter uma relação com um espelho?
In you I count stars
In you I feel so pretty
In you I taste god
In you I feel so hungry
In you I crash cars
{ "Ava Adore" (1998) Smashing Pumpkins }
Trazia consigo a graça
das fontes quando anoitece.
Era o corpo como um rio
em sereno desafio
com as margens quando desce.
Andava como quem passa
sem ter tempo de parar.
Ervas nasciam dos passos
cresciam troncos dos braços
quando os erguia no ar.
Sorria como quem dança.
E desfolhava ao dançar
o corpo, que lhe tremia
num ritmo que ele sabia
que os deuses devem usar.
E seguia o seu caminho,
porque era um deus que passava.
Alheio a tudo o que via,
enleado na melodia
duma flauta que tocava.
{ Eugénio de Andrade (1923-2005) }
dormir mal é... [#4]
dormir mal é... [#3]
dormir mal é... [#2]
dormir mal é... [#1]
segunda declinação
exclamava o vicente, entre dois goles de whisky, num tom que não era o de uma exclamação.
- o amor.
como uma frase completa. como um diálogo inteiro ali dentro a que nenhum de nós acedia.
- o amor.
e repetia isto até puxar a carteira, pagar a conta e, tropeçando na empregada, sair do bar.
primeira declinação
era um amo-te com uma cadência vívida e diferente dos amo-tes que havia ouvido até então. começava por sussurrar um a ao ouvido de jaime como se lambesse um osso; contudo, articulava tudo o resto com uma sugestão timidamente erótica. era um amo-te que dizia tanto onde estiveste quanto dá-me o teu corpo. mas tiago não precisava sequer de percorrer a palavra até ao fim: enquanto torneava o o, já jaime lhe oferecia o pescoço ao punhal da língua.
mas só agora, vários anos mais tarde, depois de obrigar tiago a repetir aquele amo-te numa infinitude de tons e formas - agora, à janela da mesma sala onde ainda ressoavam os amo-tes ditos e gemidos em catadupa - agora, neste instante, reparou que o único amo-te que nunca tinha ouvido da boca de tiago - articulado pela mesma língua que lhe lambia as orelhas como um osso - era o amo-te na sua declinação mais simples - o amo-te que dizia só, e isso bastava, só amo-te.
{ "Shame" (2004) P.J. Harvey }
11:24 am fnac do chiado as estantes novamente reorganizadas e eu sem encontrar dois livros de poesia oh well e então entre o gastão cruz e o pedro mexia encontro o R. depois de meses de ausência não me vê gesticulo na direcção do livro que ele folheia (anna akhmatova interrogação) olá R. como estás bem e tu a conversa do costume numa pessoa nada costumeira pois foi preciso passar a margem para te ver é verdade desculpa tenho de ir ali ver livros técnicos ah pois livros técnicos então até qualquer dia fim de diálogo qual diálogo até qualquer dia livros técnicos bah 8:47 pm cais do terreiro do paço shame shame shame shame is the shadow of love sussurra a p j harvey ao ouvido enquanto entro no cais há dias em que acredito que a p j canta só para mim num show privado entro e oh gloria in excelsis dei o R. no cais de embarque como protagonista de um episódio do national geographic com uma rapariga do montijo pois deveria ter adivinhado como é por todos sabido o namoro oblitera as amizades teoria bastas vezes por mim comprovada nos três últimos anos aproximo-me à paisana e aceno-lhe como forma de dizer estou aqui mas acabo por dançar em torno das cadeiras arrivederci adieu auf wiedersiehn goodbye 9:32 pm cais de embarque do montijo no autocarro enquanto circundo o parque de estacionamento, vejo num único frame o R. e a rapariga para quem nem sequer olhei engolidos num abraço e tudo o resto os carros o pôr-do-sol a música dos violinos que não estava lá mas estava tudo o fiscal os pescadores a lama do rio o vento ameno nos longos cabelos de ambos tudo reduzido a uma concha de pouco ou nada e assim just feel shame shame shame shame shame shame shame shame
Que reparasse nas manchetes gordas penduradas nos quiosques e nos rodapés dos noticiários, que olhasse o quotidiano sem um pingo de assombro. Tinha aprendido com o mundo e o mundo justificava a sua conduta odiosa.
- Lê os jornais, meu caro. Não fui eu que inventei o mundo.
para o P.
I have resisted this for years, writing to you as if you could hear me. ..... It's been different with my father: ..... he and I always had a kind of rhetoric going with each other, a battle between us, it didn't matter if one of us was alive or dead. ..... But, you, I've had a sense of protecting your existence, not using it merely as a theme for poetry or tragic musings; letting you dwell in the minds of those who have reason to miss you, in your way, or their way, not mine. The living, writers specially, are terrible projectionists. ..... I hate the way they use the dead.
Yet I can't finish this without speaking to you, not simply of you. ..... You knew there was more left than food and humor. ..... Even as you said that in 1953 I knew it was a formula you had found, to stand between you and pain. [...].
That's why I want to speak to you now. ..... To say: no person, trying to take responsibility for her or his identity, should have to be so alone. ..... There must be those among whom we can sit down and weep, and still be counted as warriors. ..... (I make up this strange, angry packet for you, threaded with love.) ..... I think you thought there was no such place for you now, and perhaps there was none then, and perhaps there is none now; but we will have to make it, we who want an end to suffering, who want to change the laws of history, if we are not to give ourselves away.
reality puzzles #1








