stark major
29.6.05

escrevo isto tendo terminado, há instantes, a terceira série do 24. ainda que toda a gente saiba que sou um dos seus seguidores fiéis desde o primeiro minuto, sou frequentemente confrontado com o facto de 24 ser um produto televisivo de menoríssima qualidade. admito algumas falhas do dispositivo narrativo, a implausibilidade de algumas das soluções, os desequilíbrios entre as várias tramas (exemplar a intriga da Kim, na segunda série). admito tudo isso, lembrando que dos mesmos pecados sofrem os restantes produtos televisivos sem que recebam metade dos insultos dirigidos a 24.

a tudo isso responderia com os últimos quatro minutos deste episódio. depois de vinte e quatro horas vividas a contra-relógio, naquela que foi, creio, a mais ambiciosa das três séries - Jack Bauer sozinho no jipe, em silêncio. poucas séries do género lembrariam de modo tão dramático os altíssimos custos pessoais de se ser herói. pois bem: 24 fê-lo - e fê-lo de uma forma surpreendentemente dolorosa (para os derradeiros instantes de um último episódio). se a ficção televisiva - 24 incluído - é tradicionalmente escapista, Jack Bauer fecha o ciclo contra a corrente, subitamente confrontando o espectador com o lado humano de uma personagem bastas vezes sobrehumana.

(e que outra série conseguiria eliminar quatro protagonistas and getting away with it?)


12pm - 1pm

hoje, 22:30, na :2.

it ends tonight.

28.6.05

a acusação de arrogância seria trágica se não fosse hilariante. dá-me uma vontade irreprimível de me rir à gargalhada.

pois claro.

é o palhaço deste lado que, depois de um desabafo, desaparece e reaparece num estalar de dedos. sim, claro. «os amigos são para as ocasiões», não era? ou os amigos são apenas para todas as ocasiões - com excepção das «minhas» ocasiões? badamerda.

creio que o adjectivo era «ácido», correcto? guilty as charged.

(i wish i was both young and stupid, canta a aimee mann nos headphones. ora nem mais.)


da inocência [via MSN]
[...]

X. eu sou novato por aqui.

me. ah, boa. that's good. you're still innocent.

X. achas?

me. não. lol. who's innocent, these days?

[13 de Junho de 2005]

24.6.05

a propósito desta confissão - e porque o PostSecret é mobília da casa há muito tempo - também me confesso:

(e sim, este sou eu.)



11am - 12pm

hoje à noite, no meu vídeo.

"let's play a game, shall we?"

18.6.05

«Nessa mesma noite, [Lóri] gaguejara uma prece para o Deus e para si mesma: alivia minha alma, faze com que eu sinta que Tua mão está dada à minha, faze com que eu sinta que a morte não existe porque na verdade já estamos na eternidade, faze com que eu sinta que amar é não morrer, que a entrega de si mesmo não significa a morte e sim a vida, faze com que eu sinta uma alegria modesta e diária, faze com que eu não Te indague de mais, porque a resposta seria tão misteriosa quanto a pergunta, faze com que eu receba o mundo sem medo, pois para esse mundo incompreensível nós fomos criados e nós mesmos também incompreensíveis, então é que há uma conexão entre esse mistério do mundo e o nosso, mas essa conexão não é clara para nós enquanto quisermos entendê-la, abençoa-me para que eu viva com alegria o pão que como, o sono que durmo, faze com que eu tenha caridade e paciência comigo mesma, amém.

De repente Lóri não suportou mais e telefonou para Ulisses:

- Que é que faço, é de noite e estou viva. Estar viva está me matando aos poucos, e eu estou toda alerta no escuro.

Houve uma pausa, ela chegou a pensar que Ulisses não ouvira. Então ele disse com voz calma e apaziguante:

- Aguente.»

{ Uma Aprendizagem ou o Livro dos Prazeres (1969) Clarice Lispector }


Better pack your bags and run
or stay until the job is done
or maybe you can sit and hope
that Providence will fray the rope
and sink like a stone
ot go it alone

and isn't it enough - for you?
isn't it enough?

{ "Today's The Day" (2002) Aimee Mann }

16.6.05

the highlight of my day is when I begin to lose consciousness
acabo de saber que, no próximo dia 13 de julho, estes senhores vêm dar um concerto na Casa da Pesca de Oeiras, no âmbito do Cool Jazz Fest. e este ano, ao contrário do último, não conto com boleias. portanto, recapitulando: os senhores vêm a este cantinho à beira-mar plantado e eu não os vou poder ver à conta dos transportes. ok. got it.

(podem dar-me dois tiros nas pernas, por favor?)


que fazer quando tudo arde?


ontem, à 01:08, a s. enviava-me esta mensagem. não fora o facto de ter apenas um cêntimo no telemóvel e teria respondido. aliás, dados os acontecimentos das últimas catorze horas, deveria tê-lo feito. creio que a frase ficou pendurada sem resposta e tornou-se, sem querer, na epígrafe do meu dia. olhando agora para os últimos dias, a obsessão sem limites pela Anna Karenina foi, mais do que a consequência de uma reconciliação sucessivamente adiada, uma premonição dos diabos. ora bolas.



à 1:52, sem sono, a olhar para a parede em frente da cama e a rever o jogo de xadrez (damas? who's reading this, anyway) do Levin e da Kitty. três anos depois da primeira leitura, poderá alguém desligar o botão Anna Karenina, por favor? está à direita do botão Agustina Bessa-Luís. pronto. muito obrigado.

15.6.05

...
a.: não a conhece. ama pessoas completamente diferentes dela própria.
eu: obviamente. acha que conseguiria ter uma relação com um espelho?


10am - 11am
hoje, 22:30, na :2.

"sometimes, complex problems have the simplest solutions, wayne."


14.6.05

In you I see dirty
In you I count stars
In you I feel so pretty
In you I taste god
In you I feel so hungry
In you I crash cars

{ "Ava Adore" (1998) Smashing Pumpkins }

13.6.05

nuno's gotta brand new toy.


Green God

Trazia consigo a graça
das fontes quando anoitece.
Era o corpo como um rio
em sereno desafio
com as margens quando desce.

Andava como quem passa
sem ter tempo de parar.
Ervas nasciam dos passos
cresciam troncos dos braços
quando os erguia no ar.

Sorria como quem dança.
E desfolhava ao dançar
o corpo, que lhe tremia
num ritmo que ele sabia
que os deuses devem usar.

E seguia o seu caminho,
porque era um deus que passava.
Alheio a tudo o que via,
enleado na melodia
duma flauta que tocava.

{ Eugénio de Andrade (1923-2005) }


dormir mal é... [#4]
... reparar na luz da cozinha (acesa) e levantar-me, com medo que o Vronsky chegue atrasado ao hipódromo.


dormir mal é... [#3]
... às 3:30 da manhã, achar que a minha própria tragédia é a da Kitty no baile (algures na parte um da Anna Karenina). como se houvesse um único olhar que fizesse girar a máquina do mundo.


dormir mal é... [#2]
... às 3 da manhã, só conseguir pensar na mala vermelha da Anna Karenina e acreditar que aí se concentra toda a tragédia do universo.


dormir mal é... [#1]
... ficar acordado até às 4:30 da manhã a escrever posts e a guardá-los como drafts - e acordar às 9:00, quando alguém decide bater à porta do quarto, e verificar que nem sequer tinha o computador ligado.

12.6.05

hoje, 21:30



oh, boy.



segunda declinação
- o amor.

exclamava o vicente, entre dois goles de whisky, num tom que não era o de uma exclamação.

- o amor.

como uma frase completa. como um diálogo inteiro ali dentro a que nenhum de nós acedia.

- o amor.

e repetia isto até puxar a carteira, pagar a conta e, tropeçando na empregada, sair do bar.


primeira declinação
tinha vinte e cinco anos quando tiago lhe disse pela primeira vez amo-te.

era um amo-te com uma cadência vívida e diferente dos amo-tes que havia ouvido até então. começava por sussurrar um a ao ouvido de jaime como se lambesse um osso; contudo, articulava tudo o resto com uma sugestão timidamente erótica. era um amo-te que dizia tanto onde estiveste quanto dá-me o teu corpo. mas tiago não precisava sequer de percorrer a palavra até ao fim: enquanto torneava o o, já jaime lhe oferecia o pescoço ao punhal da língua.

mas só agora, vários anos mais tarde, depois de obrigar tiago a repetir aquele amo-te numa infinitude de tons e formas - agora, à janela da mesma sala onde ainda ressoavam os amo-tes ditos e gemidos em catadupa - agora, neste instante, reparou que o único amo-te que nunca tinha ouvido da boca de tiago - articulado pela mesma língua que lhe lambia as orelhas como um osso - era o amo-te na sua declinação mais simples - o amo-te que dizia só, e isso bastava, só amo-te.

9.6.05

nuno's status

no signal


8.6.05

9am - 10am
hoje, 22:30, na :2.



the clock is ticking, jack.

7.6.05

shame is the shadow of love

{ "Shame" (2004) P.J. Harvey }


11:24 am fnac do chiado as estantes novamente reorganizadas e eu sem encontrar dois livros de poesia oh well e então entre o gastão cruz e o pedro mexia encontro o R. depois de meses de ausência não me vê gesticulo na direcção do livro que ele folheia (anna akhmatova interrogação) olá R. como estás bem e tu a conversa do costume numa pessoa nada costumeira pois foi preciso passar a margem para te ver é verdade desculpa tenho de ir ali ver livros técnicos ah pois livros técnicos então até qualquer dia fim de diálogo qual diálogo até qualquer dia livros técnicos bah 8:47 pm cais do terreiro do paço shame shame shame shame is the shadow of love sussurra a p j harvey ao ouvido enquanto entro no cais há dias em que acredito que a p j canta só para mim num show privado entro e oh gloria in excelsis dei o R. no cais de embarque como protagonista de um episódio do national geographic com uma rapariga do montijo pois deveria ter adivinhado como é por todos sabido o namoro oblitera as amizades teoria bastas vezes por mim comprovada nos três últimos anos aproximo-me à paisana e aceno-lhe como forma de dizer estou aqui mas acabo por dançar em torno das cadeiras arrivederci adieu auf wiedersiehn goodbye 9:32 pm cais de embarque do montijo no autocarro enquanto circundo o parque de estacionamento, vejo num único frame o R. e a rapariga para quem nem sequer olhei engolidos num abraço e tudo o resto os carros o pôr-do-sol a música dos violinos que não estava lá mas estava tudo o fiscal os pescadores a lama do rio o vento ameno nos longos cabelos de ambos tudo reduzido a uma concha de pouco ou nada e assim just feel shame shame shame shame shame shame shame shame


5.6.05

- Julgas-me implacável? - perguntou-lhe, arqueando a sobrancelha num trejeito desentendido.

Que reparasse nas manchetes gordas penduradas nos quiosques e nos rodapés dos noticiários, que olhasse o quotidiano sem um pingo de assombro. Tinha aprendido com o mundo e o mundo justificava a sua conduta odiosa.

- Lê os jornais, meu caro. Não fui eu que inventei o mundo.

2.6.05

para o P.
XXII

I have resisted this for years, writing to you as if you could hear me. ..... It's been different with my father: ..... he and I always had a kind of rhetoric going with each other, a battle between us, it didn't matter if one of us was alive or dead. ..... But, you, I've had a sense of protecting your existence, not using it merely as a theme for poetry or tragic musings; letting you dwell in the minds of those who have reason to miss you, in your way, or their way, not mine. The living, writers specially, are terrible projectionists. ..... I hate the way they use the dead.

Yet I can't finish this without speaking to you, not simply of you. ..... You knew there was more left than food and humor. ..... Even as you said that in 1953 I knew it was a formula you had found, to stand between you and pain. [...].

That's why I want to speak to you now. ..... To say: no person, trying to take responsibility for her or his identity, should have to be so alone. ..... There must be those among whom we can sit down and weep, and still be counted as warriors. ..... (I make up this strange, angry packet for you, threaded with love.) ..... I think you thought there was no such place for you now, and perhaps there was none then, and perhaps there is none now; but we will have to make it, we who want an end to suffering, who want to change the laws of history, if we are not to give ourselves away.

{ "Sources" (1986) Adrienne Rich }

1.6.05

8am - 9am
hoje, 22:30, na :2.



the clock is ticking.


reality puzzles #1
ontem, ao ler as primeiras notícias, não acreditei. afinal, woodward e bernstein já o confirmaram. trinta anos depois de watergate, o escândalo que conduziria à demissão de richard nixon da presidência dos estados unidos, foi revelada a identidade do mais famoso informador da história do jornalismo: deep throat.