stark major
31.7.05

but art it ain't
percebo que a minha noção de arte contemporânea é muito lata quando, na Baixa de Lisboa, uma senhora em convulsões na via pública - em plena crise epiléptica - me fez crer, nos primeiros instantes, tratar-se de uma performance radical de um qualquer grupo de artes de rua.


ah, poizé.
Zenia, c'est moi.


it's all about what?
[Roz] remembers one phase, when [her children] were, what? Four, five, six, seven? It went on for a while. They'd decided that all the characters in every story had to be female. Winnie the Pooh was female, Piglet was female, Peter Rabbit was female. If Roz slipped up and said "he," they would correct her. She! She! they would insist. All of their stuffed animals were female, too. Roz still doesn't know why. When she asked them, the twins would give her looks of deep contempt. "Can't you see?" they would say.

She used to worry that this belief of theirs was some reaction to Mitch and his absences, some attempt to deny his existence. But maybe it was simply the lack of penises, on the stuffed animals. Maybe that was it. In any case, they grew out of it.

{ Margaret Atwood (1993) The Robber Bride. London: Virago, 2002, 350-351. }


saturday afternoon fever
últimos dias do mês, lifting na conta bancária, paragem para reabastecimento. resultado?

tanque cheio. prossigamos viagem.


28.7.05

50.

João Carlos não acha graça, diz: merda de pátria, azar ter caído aqui, ninguém nem nada me consola, desastre de ter tomado o comboio errado, em descensão há séculos, apodrecido por dentro, por fora velho cagado, arrumado em ramal fechado, atacado da demência do passado, mantido em vida por extremo artifício, tresanda a bafio, a morte, a melancolia inglória. Malta tresmalhada em apatia, em desespero sufocada, resignação desconsolada, cansada de outroras glórias exageradas agora pela memória, desgraçada, fácil de comentar a postas de bacalhau, apostas de totobola, lotaria que anda amanhã à roda, frouxa malta, de genica falta, de energia fraca, molengona fantasia e imaginação que mais não dão senão para contar piadas, inventar anedotas, amargas, alarves, palavreado político, calúnia, vigarice. Embebida em estereofonia para esquecer isto, escuto canção que me faz sentir canto, não quem canta, nem instrumento apto a provocar tremores-de-terra na terra tua e minha, capaz de dar conosco em pataratas, única decente saída desde buraco onde nos afundámos, ou nos deixámos afundar, tu grande Planador acompanhado da pequena Maconhesa que contigo embarca nesta nave de loucos, isolada do mundo e à deriva, cortadas as amarras, os contactos com a «realidade»? A isto chamam país? Mero flatus vocis, mania quase mansa mas que custou já milhares de mortos em África? Não há safa? O exílio no reino? O reino do exílio? Resisto, resistes, gageiro, acima, acima, o que fores tenha gosto de grandeza, seja fogo e luz e lava, vulcão e canto vulcantemente seja e se alce e erga e chegue aos teus máximos mastros, vê se vês terra diferente entre o estrume e os astros e galáxias que, indiferentes, nos fazem, desfazem, contemplam lá do alto das esferas geladas. A pacífica dança do incenso barato arde ao canto do quarto, leva-me a meditar na resplendente matéria, enche-me de veneração pelo poder da imagem, pelo desejo predisposto a tudo ter, tudo ser, apetecente de todos os projectos maiores que nós mesmos, mesmo daqueles destinados ao fracasso, luta pela suprema sobrevivência, libertação da prisão onde nos metemos, prendemos, vigiamos, espiamos, torturamos, desterramos, enterramos, enganamos, matamos. Sem regresso, sem remédio? Olhar vorazmente em frente, a fim de não me suceder como à mulher de Lot. Concordas. Sou signo do Leão, tu touro, ambos de patas postas sobre o peso do solo. Se por vezes voamos é para ver mais longe outro cenário. Este não presta. Isto é poço onde pouco se passa e esse se passa sem ninguém dar por nada. Basta.

«Tempo de gente cortada.»

13-4-74

{ Almeida Faria (1978) Cortes. 3.ª edição. Caminho: 1986, 189-191. }


quinta declinação {em honra da crise nacional}
o amor faz milagres, mas não paga as contas da casa.


quarta declinação {em jeito de mantra}
amo-te? não. não te amo, não.

20.7.05

Want to know the truth?
I couldn't care less.

18.7.05








[aqui jaz um post secreto, que nunca chegou a ser escrito senão na pele e no qual confessaria o banco do jardim, o miradouro e uma tarde de domingo, em contraste com as torturas boschianas das segundas-feiras.]








17.7.05

born again hedonist
hoje, das oito às onze da matina, sozinho na praia deserta, sem rádios nem pirralhos, a ouvir Bonnie 'Prince' Billy e a ler A Brusca, da Agustina. é possível ser-se feliz, ainda que por umas horitas, com pouco - muito pouco.


Lie to me.


Johnny: How many men have you forgotten?

Vienna: As many women as you've remembered.

Johnny: Don't go away.

Vienna: I haven't moved.

Johnny: Tell me something nice.

Vienna: Sure. What do you want to hear?

Johnny: Lie to me. Tell me all these years you've waited...

Vienna: All these years I've waited.

Johnny: Tell me you'd have died if I hadn't come back.

Vienna: I would have died if you hadn't come back.

Johnny: Tell me you still love me like I love you.

Vienna: I still love you like you love me.

Johnny: Thanks. Thanks a lot.

{ Johnny Guitar (1954) Nicholas Ray }


11.7.05

dão-se alvíssaras
recebi hoje, via mail do p., a capa de um álbum inenarrável (mais espécimens aqui).

não consegui encontrar nenhum MP3 deste senhor; resolvo assim lançar um apelo desesperado. dou recompensa a quem me enviar qualquer música - qualquer uma - do sensual (!) Tino. em alternativa, troco por MP3's do Graciano Saga. resposta para o n.º 1193 deste blog.


para o j. m.
[...]

Between the idea
And the reality
Between the motion
And the act
Falls the Shadow

For Thine is the Kingdom

Between the conception
And the creation
Between the emotion
And the response
Falls the Shadow

Life is very long

Between the desire
And the spasm
Between the potency
And the existence
Between the essence
And the descent
Falls the Shadow

For Thine is the Kingdom

For Thine is
Life is
For Thine is the


[...]



{ «The Hollow Men» (1925) T. S. Eliot }

10.7.05

hoje, às 18:30


«Race remains a powerful social determinant; it is useless to speak of ‘transcending’ it or to wish it away, however fictional it may be.»

{ George Hutchinson, The Harlem Renaissance in Black and White. Cambridge, MA: The Belknap Press of Harvard University Press, 1997, 26. }



ontem, às 14:30

obra-prima? não, longe disso. ainda que não seja um realizador que aprecie particularmente, spielberg realizou dois dos meus filmes favoritos: jaws (o qual já devo ter visto umas 120 vezes, and counting) e minority report. ainda assim war of the worlds, na sua filosofia «série-b-com-um-orçamento-milionário», acerta mais vezes do que erra: o look retro, as interpretações (fortíssimas) do trio central, toda a sequência da aparição do primeiro tripod, a paranóia servida em doses industriais (a lembrar a melhor SF dos anos 50). alguns momentos de flagrante leitura política fizeram-me torcer o nariz (é o caso da deixa de Robbie questionando-se se os invasores viriam da Europa; os cartazes com fotos de desaparecidos, a lembrar de modo rude o 9/11; ou a chuva de roupas do céu, quais detritos a cair das Torres). ainda assim, a actualização da obra de Wells prova que esse medo vitoriano chamado invasão (de marcianos, vampiros ou indígenas) não esmoreceu. we just call them a different name now.


terceira declinação
repara que não disse «fica». passava ainda o genérico inicial no ecrã do cinema quando me debrucei na cadeira como se estivesses na outra ponta da sala (estavas ao meu lado) e, com todos os cuidados do mundo, segredei-te ao ouvido «vai-te embora». não: não era nenhuma manobra psicológica; não era nenhum «fica» disfarçado de rejeição. lembra-te que nem todos jogamos à bisca psicológica. acredites ou não, era o «vai-te embora» mais honesto que guardo na memória.

5.7.05

Welcome to Illinois!
descobri Sufjan Stevens o ano passado, aquando do lançamento de Seven Swans. decisão fulminante: comprei e fiz o download de tudo o que era possível encontrar e três (dos cinco) álbuns deste singer/songwriter entraram rapidamente na lista dos meus all-time favourites.

Stevens é o extraterrestre do planeta indie com uma ambição sem limites, relativamente à qual o projecto «The 50 States» é apenas a ponta mais visível: um álbum para cada um dos estados dos E.U.A. em 2003, Greetings from Michigan! The Great Lakes State estreava o conceito com um trabalho dedicado ao estado natal de Stevens. por puro acaso, descubro há instantes que o segundo álbum acaba de ser lançado - precisamente hoje. e está na amazon a £8,99. e eu - ah, pois! - vou comprar já de seguida.

senhoras e senhores - Come on feel the Illinoise:



Alinhamento:

1. Concerning the UFO sighting near Highland, Illinois

2. The Black Hawk War, or, How To Demolish An Entire Civilization and Still Feel Good About Yourself in the Morning, or, We Apologize for the Inconvenience But You're Going To Have To Leave Now, or, "I have fought the Big Knives and will continue to fight them till they are off our lands!"

3. Come On! Feel the Illinoise! / Part I: The World's Columbian Exposition / Part II: Carl Sandburg Visits Me In A Dream

4. John Wayne Gacy, Jr.

5. Jacksonville

6. A short reprise for Mary Todd, who went insane, but for very good reasons

7. Decatur, or, Round of Applause for Your Step-Mother!

8. One last "Whoo-hoo!" for the Pullman

9. Chicago

10. Casimir Pulaski Day

11. To The Workers of The Rock River Valley Region, I have an idea concerning your predicament, and it involves an inner tube, bath mats, and 21 able-bodied men

12. The Man of Metropolis Steals Our Hearts

13. Prairie Fire That Wanders About

14. A conjunction of drones simulating the way in which Sufjan Stevens has an existential crisis in the Great Godfrey Maze

15. The Predatory Wasp of The Palisades Is Out To Get Us

16. They Are Night Zombies!! They Are Neighbors!! They Have Come Back From the Dead!! Ahhhh!

17. Let's hear that string part again, because I don’t think they heard it all the way out in Bushnell

18. In This Temple As in The Hearts of Man For Whom He Saved The Earth

19. The Seer's Tower

20. The Tallest Man, the Broadest Shoulders / Part I: The Great Frontier / Part II: Come to Me Only With Playthings Now

21. Riffs and Variations on a single note for Jelly Roll, Earl Hines, Louis Armstrong, Baby Dodds, and the King of Swing, to name a few

22. Out of Egypt, into the Great Laugh of Mankind, and I shake the dirt from my sandals as I run

4.7.05

constatação pós-prandial
os Coldplay dão um novo significado ao adjectivo «labrego».