stark major
30.10.05



... como lux lisbon, ainda deitado na relva da minha cama, à espera que termine a noite escura.










... what we have here is a dreamer. someone completely out of touch with reality...



deitado na cama, encolhido como se estivesse com frio, a ouvi-lo em repeat.

once I wanted to be the greatest.
the greatest - the greatest - the greatest.




[...].

Backwards up the mossy glen
Turned and trooped the goblin men,
With their shrill repeated cry,
«Come buy, come buy.»
When they reached where Laura was
They stood stock still upon the moss,
Leering at each other,
Brother with queer brother;
Signalling each other,
Brother with sly brother.
One set his basket down,
One reared his plate;
One began to weave a crown
Of tendrils, leaves, and rough nuts brown
(Men sell not such in any town);
One heaved the golden weight
Of dish and fruit to offer her:
«Come buy, come buy,» was still their cry.
Laura stared but did not stir,
Longed but had no money:
The whisk-tailed merchant bade her taste
In tones as smooth as honey,
The cat-faced purr'd,
The rat-paced spoke a word
Of welcome, and the snail-paced even was heard;
One parrot-voiced and jolly
Cried «Pretty Goblin» still for «Pretty Polly»; -
One whistled like a bird.

But sweet-tooth Laura spoke in haste:
«Good folk, I have no coin;
To take were to purloin:
I have no copper in my purse,
I have no silver either,
And all my gold is on the furze
That shakes in windy weather
Above the rusty heather.»
«You have much gold upon your head,»
They answered altogether:
«Buy from us with a golden curl.»
She clipped a precious golden lock,
She dropped a tear more rare than pearl,
Then sucked their fruit globes fair or red:
Sweeter than honey from the rock,
Stronger than man-rejoicing wine,
Clearer than water flowed that juice;
She never tasted such before,
How should it cloy with length of use?
She sucked and sucked and sucked the more
Fruits which that unknown orchard bore,
She sucked until her lips were sore;
Then flung the emptied rinds away,
But gathered up one kernel stone,
And knew not was it night or day
As she turned home alone.

[...].

{ Goblin Market (1862) Christina Georgina Rossetti, vv. 87-140. Ilustração: Dante Gabriel Rossetti (1865; 2.ª edição) }

27.10.05

hoje

junto aos torniquetes da estação de metro

rasurei o blog da minha cabeça

atirei o moleskine para dentro da mala a tiracolo

e segredei-te um post -

- sem cifras nem segredos -

- não era a habitual citação de um livro nenhum poema duas palavrinhas simples

(uma semana a soletrá-las na cabeça e um mover dos teus olhos para as prender na garganta)

- segredei-te um post -

(escrito há anos sem cifras nem qualquer mistério duas palavrinhas simples e facílimas de decifrar)

- segredei-te um post -

- achei que não teria coragem, que seria o fraco do costume -

segredei-te

junto à orelha como se lambesse um osso

um post que jamais publicarei.


... salvo uma gaveta da cómoda (a terceira a contar de baixo), onde os arrumara até ao próximo inverno.

25.10.05

SPS (Short Poetry System)
Defining the Problem
Wendy Cope
(1992)

I can't forgive you. Even if I could,
You wouldn't pardon me for seeing through you
And yet I cannot cure myself of love
For what I thought you were before I knew you.


Sender: S. +3519********
Sent: 00:41:16 17-Oct-2005


nuno's status #8
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a subir lisboa às nove da manhã, com os olhos sonolentos postos no chão.

(mas tão alerta e em silêncio absoluto, enquanto escrevo posts sobre as pedras da calçada.)


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23.10.05

a post for those of you, underperformers and underachievers {ou «o nelson era um génio»}
Myrna sugere:

FUJA DO HOMEM BONITO

Clélia escreve-me uma extensa carta e faz, inicialmente, esta confissão: "Sempre gostei de homem bonito. Todos os meus namorados eram bonitos. Todos, menos o último". Vacila, antes de elucidar - "Deste, eu gostei mais". E ela me consulta, porque não entende o próprio gosto ou, por outra, a própria falta de gosto. Acha inexplicável que, entre tantos bonitos, só o feio a impressionasse, de maneira profunda e definitiva. "Jamais poderei esquecê-lo" - confidencia Clélia. Interroga a si mesma e a mim: "Por quê, meu Deus do céu, por quê?". Bem, Clélia, conversemos nós duas, com um máximo de intimidade.

Trata-se, em primeiro lugar, de saber o seguinte: - "O que vem a ser um homem bonito". Eu penso, logo, nas estátuas gregas, nos rapazes de praia, os artistas de cinema. Os gregos eram perfeitos, perfeitos demais, talvez; belos, não há dúvida. Assim os atletas. E assim os rapazes de praia e os artistas de cinema. Todos formidáveis, todos. Mas isso basta? Penso em Robert Taylor. E, conjeture-se, a sua beleza não esconde uma tremenda e irremediável vacuidade, um vazio de alma, uma ausência total de espírito? Pergunto: "Como suportar, por mais de quinze dias, um cidadão sem espírito? Como amar, por mais de uma semana, um lindo, um deslumbrante débil mental?". Conheço vários homens bonitos; e nenhum deles, que eu saiba, já inspirou um amor imortal. Encantam a mulher no namoro, no noivado e na lua-de-mel. Depois, inspiram um tédio absoluto, irredutível. A mulher tem enjôo físico, só de vê-los. E quantos homens, chamados feios, nada gregos, nada clássicos, são amados com verdadeiro fanatismo? Porque eles possuem uma série de qualidades que suprem a falta da simples beleza física, qualidades que os transfiguram. E não se esqueça, Clélia, existe uma beleza das pessoas feias. É algo de sutil, insidioso, imponderável, mas influi, fisicamente, que gera, em nós, verdadeiras e constantes ilusões de ótica, fazendo com que vejamos o belo onde só existe o antiestético. Está certo que as mesmas qualidades poderiam existir com a beleza. Mas isso é tão raro, tão difícil, constitui, por assim dizer, uma possibilidade inexistente. Pior do que Quasímodo, pior do que o "Fantasma da Ópera", pior do que Boris Karloff - é o bonito oco, que não liga duas idéias, que jamais leu um verso, nem mesmo uma manchete, que é sensível e inteligente como um paralelepípedo. Homens desse tipo geram as desilusões atrozes. E é fácil explicar por quê. Quando gostamos de um feio, é pelo seu valor pessoal, pelo seu encanto, pela sua graça interior e irresistível, pelo seu espírito, pelo seu interesse humano. Ao homem bonito, não. Podemos amá-lo pelos seus traços, pelas suas feições, pela sua elegância. Pela beleza, em suma. E não por ele, pelo conjunto de qualidades que ele devia ter. Lembre-se, Clélia, que a beleza constitui, apenas, um único valor, entre os muitos valores pessoais de um homem. Se você amou um feio, e amou um feio mais do que os outros, não se admire. Ele valia muito mais para seu gosto. Ele possuía um valor pessoal, uma personalidade que faltava aos demais. E um homem feio, só é feio em um certo sentido. Jamais o será para a mulher que o ama. E parece que chegamos, agora, ao ponto crucial da questão. Bonito é o homem de quem a gente gosta. Não importa que seja Quasímodo em pessoa. A mulher o achará lindo, perfeito, como um heleno de vinte anos. Terá o nariz torto. Será vesgo. Não para a mulher. Esta sempre o julgará inexcedível. Ele produzirá, nela, uma impressão visual imcomparável. Não importa que, para os outros, seja horroroso. O amor é isso mesmo; ou seja: esta capacidade de ver o que os outros não vêem, de ver o que não existe e, enfim, de conferir, a um cidadão, qualidades físicas que ele, na maioria dos casos, não tem. Ora, o homem bonito não permite semelhante delírio. Para que embelezar o que já é belo? E o fato de ver uma beleza evidente, irrefutável, que todo o mundo vê, que todo o mundo constata, destrói, no fenômeno amoroso, o caráter essencial de mágica, delírio, imaginação e poesia. Creia-me, Clélia, nenhum Robert Taylor, nenhum Erroll Flynn, vale o seu deplorabilíssimo namorado suburbano. Quem é, entre tantos homens que cruzam o seu caminho, que você vê, em carne e osso, ou no cinema, nas imagens de sombra e luz? Quem é o mais belo, entre tantos homens, realmente vistos, ou, apenas, sonhados? - o homem amado.

{ Nelson Rodrigues (2002) Não se pode amar e ser feliz ao mesmo tempo. São Paulo: Companhia das Letras, 35-37. }


picture postcards from a not-so-known past
(front)


(back)


This is the barbecue we had last night my picture is to the left with a cross over it your son, joe

{ Charred corpse of Jesse Washington suspended from utility pole. May 16, 1916, Robinson, Texas. Gelatin silver print. Real photo postcard. 5 1/2 x 3 1/2" }

Lynchers often paraded their victim down the main street, through black neighborhoods, and in front of "colored schools" that were in session. Jesse Washington, seventeen years old, was the chief suspect in the May 8, 1916, murder of Lucy Fryer of Robinson, Texas, on whose farm he worked as a laborer. After the lynching, Washington's corpse was placed in a burlap bag and dragged around City Hall Plaza, through the main streets of Waco, and seven miles to Robinson, where a large black population resided. His charred corpse was hung for public display in front of a blacksmith shop. The sender of this card, Joe Meyers, an oiler at the Bellmead car department and a Waco resident, marked his photo with a cross (now an ink smudge to left of victim).

(ver para não esquecer.)

22.10.05

esta tarde, às 16:50

muitos furos abaixo dos dois anteriores de Miyazaki. e isso importa? em silêncio, com a sequência que me levou às lágrimas em loop mental - prova irrefutável que aos vinte e cinco anos ainda me comovo como um miúdo de cinco (e envergonho-me disso como um adolescente de dezassete).

p.s. and right there for a minute you knew me so well.


nuno's status #7
a lei do eterno retorno.

20.10.05

so far from the truth.

so close to the bone.


CAMERA moves towards the little EIGHT YEAR OLD BOY as he watches the older couple CRY and SCREAM as detectives begin to cuff them -

NARRATOR. ... and it is in the humble opinion of this narrator that this is not just «Something That Happened.» This cannot be «One of those things...» This, please, cannot be that. And for what I would like to say, I can't. This Was Not Just A Matter Of Chance.

CAMERA pushes in towards the MOTHER as she screams and screams and the officer's fight to regain control of her - in the scuffle, the apartment door is shut directly in the face of the CAMERA.

CUT TO BLACK.

NARRATOR. Ohhhh. These strange things happen all the time.

{ Magnolia (1999) P. T. Anderson }








[post censurado às 13 horas e 20 minutos do dia 20 de outubro de 2005.]








ou talvez tudo isto seja mesmo eu. ficção incluída.


não esquecer:
«autobiografia ficcionada» é o mote deste caderno. tudo isto sou eu. nada disto sou eu.


my moleskine drafts
d. havia dito, em jeito de mote, que seria claro. mas a clareza tardava em chegar: calado, baixava o olhar e mexia os dedos das mãos, como se procurasse lá em baixo, entre as pedras e o musgo, algo (o quê?) que lhe escapava. lembrou-se então de uma frase que lera num livro anos atrás e da força inaudita com que a sublinhara a roxo - um lápis de cor roxo, como as vestes dos padres:

abc def ghi jkl mno pqr stu vwx yz abc def ghi jkl mno pqr stu vwx yz abc def ghi jkl mno pqr stu vwx yz abc def ghi jkl mno pqr stu vwx yz abc def ghi jkl mno pqr stu vwx yz abc def ghi jkl mno pqr stu vwx yz language only begins at the point where communication is endangered abc def ghi jkl mno pqr stu vwx yz abc def ghi jkl mno pqr stu vwx yz abc def ghi jkl mno pqr stu vwx yz abc def ghi jkl mno pqr stu vwx yz abc def ghi jkl mno pqr stu vwx yz abc def ghi jkl mno pqr stu vwx yz abc def ghi jkl mno pqr stu vwx yz abc def ghi jkl mno pqr stu vwx yz abc def ghi jkl mno pqr stu vwx yz abc def ghi jkl mno pqr stu vwx yz

como uma onda vinda de longe que desabasse junto a si naquele instante, d. olhou-o

(olhei-o)

olhou-o

(não foi o d., fui eu)

olhei-o com hesitação, olhos serenos e honestos

(honestos)

e fez -

- fiz aquele balbuciar sem sentido desaparecer num passe de mágica

(puff)

e ainda hesitante pouso a cabeça no teu ombro porque tanto tempo depois percebo

(e estou certo. o d. não tem certezas, mas eu estou certo)

que a linguagem acaba onde tu

(não a liberdade, d.. a liberdade continua. a liberdade é potenciada. só a linguagem.)

a linguagem acaba onde tu começas.


{entre o alvaláxia e o metropolitano, algures entre as 11:30 e as 12:00 do dia 18 de outubro de 2005: páginas 21 a 24 do meu moleskine}


nuno's status #6
thinking and or acting.

18.10.05


15.10.05

subsídios para uma definição clara, objectiva, inequívoca e indiscutível do transcendente segundo um ateu convertido:
God is the sweat running down his back.

{ P. J. Harvey (1998) «A Perfect Day Elise» }


Joseph walked on and on the sunset
Went down and down coldness
Cooled their desire and Dawn said
«Let's build a fire»

The sun dressed the trees in green
And Joe said
«Dawn I feel like a king»
And Dawn's neck and her feet were bare
Sweetness in her golden hair

Said «I'm not scared»
Turned to her and smiled
Secrets in his eyes
Sweetness of desire

Is this desire, enough enough
To lift us higher, to lift above?

Hour long
By hour, may we two stand
When we're dead, between these lands
The sun set behind his eyes
And Joe said: «Is this desire?»

Is this desire, enough enough
To lift us higher, to lift above?

Is this desire, enough enough
Enough inside, IS THIS DESIRE?


{ P. J. Harvey (1998) «Is This Desire?» }

11.10.05

pulp at heart


um dia disse a um amigo que sou essencialmente um rapaz elitista nos gostos. porém, deliro com uma «boa» história da Corín Tellado (a minha mãe guardou dezenas de volumes da adolescência), passo horas na Alibris em demanda de livros rascas de ficção científica dos anos 40 e 50 - e cheguei a comprar a revista Maria para ler o conto manhoso escrito a metro por uma anónima (arrumado algures entre a programação televisiva e a rubrica bebé do mês). e tudo isto para quê? para perceber que, lá no fundo, enquanto o meu cérebro se delicia com poesia modernista, o meu coração é literariamente tão reles como a qualidade do papel da Harlequin.





(won't I?)

2.10.05


deep throating
deep thinking


na passada semana, entre as 15:45 e as 00:00



filmes, filmes, filmes, filmes. a tomar em dose excessiva, quando a imaginação anda por aí aos caídos. valha-me isto: arrasei de uma assentada com a estatística da solidão nas minhas idas ao cinema. obrigado, j.. obrigado duas vezes, s.. obrigado, p..

fim do interlúdio apelidado «realidade». a vida ficcional continua neste blog dentro de instantes.


nuno's status #5

resolvi seguir uma sugestão do j., apresentada num post há uns tempos. resultado: mãos nos bolsos das calças, boné com a pala pa' trás e capuz do fato de treino na cabeça. nuno's out there in the 'hood.

(we wasnt supposed to make it past 25. the jokes on you - we still alive!)